alto-falante

fuso

Posted in palavras by Fabio Camarneiro on 06/05/2010


Todas as noites nós dormíamos um de cada lado da cama, cada um com seu travesseiro, seu criado mudo, seu abajur e seu livro pela metade. Depois da vista cansada, cada um deitava o marcador de páginas no livro, o livro no criado mudo, os óculos em cima de tudo, o corpo se ajeitando nos lençóis. As distâncias eram tão grandes que aquela cama parecia um continente, um oceano, as dobras dos lençóis eram cordilheiras e os nossos excrementos formavam bacias hidrográficas ou algum grande ajuntamento urbano.

De um lado a outro daquela cama, dois tempos distintos, uma diferença de fuso horário que fazia com que um acordasse quando o outro adormecia, um reclamava quando o outro não ouvia, um queria sexo quando o outro era fadiga.

Esse fuso horário continuava em tudo: nossos relógios marcavam horas diferentes, nossos amigos pensavam coisas diferentes, nossa comida vinha de lugares diferentes. Quando nos encontrávamos no banheiro era como se estivéssemos em um aeroporto, uma estação de trem, um sonho, um ônibus espacial: um escovava os dentes, o outro se ocupava num arremedo de toilete, e havia uma dúvida sobre que idioma, que espécie de palavras sairiam daqueles lábios outros.

Quando descobrimos tudo isso, parecia tarde. Mesmo assim, compramos as passagens e fizemos as malas – que lotamos com nossas melhores roupas e uma escova de dentes nova. Marcamos encontro no meio daquele leito, a metade do caminho entre um e outro criado mudo, entre um e outro livro fechado. A viagem foi demorada, cheia de percalços. A fronteira estava fechada, um deslizamento fechou algumas estradas, a alfândega quase pediu para que voltássemos atrás.

Mesmo assim, chegamos. Cada um em um horário diferente, cada um em um dia diferente. Cada um em um ano, em um século distinto. Não dava para escapar. Mesmo com todos os relógios sincronizados, nossos ponteiros sempre apontaram para fusos horários irreconciliáveis.

(ilustração de Sam Usher)