alto-falante

uniban vs. geisy arruda

Posted in brasil by Fabio Camarneiro on 16/11/2009

crowd1

Há alguns dias, muito se comenta sobre o caso Geisy Arruda.

Parece haver muito pouco a acrescentar aos comentários do blog de Inácio Araújo, escritos logo que a Uniban (ou Unitaleban, conforme piada que circula pela internet) expulsou a aluna.

Se alguém ainda não sabe, em 22 de outubro, Geisy Arruda foi hostilizada por colegas da universidade devido à suposta falta de decoro de suas vestimentas. Em 7 de novembro, a universidade resolveu expulsar a estudante. A razão alegada: “desrespeito à dignidade acadêmica e à moralidade”. Depois, a Uniban voltou atrás na decisão, mas Geisy já tinha se tornado uma celebridade instantânea. Atualmente, aproveita seus 15 minutos de fama.

Na Folha de S. Paulo de sábado, 7 de novembro, Hélio Schwartsman escreveu uma bela análise do caso, tocando nas razões psicológicas da expulsão da garota. Parece óbvio que Geisy serviu de bode expiatório. Uma espécie de Maria Madalena moderna, apedrejada pela multidão enfurecida, mas (diferentemente da personagem bíblica) sem nenhuma culpa.

Muitos lembraram que uma instituição de ensino possui padrões de vestimenta e conduta. Foram citadas universidades internacionais de renome, que zelam pelo bom comportamento de seus alunos.

O primeiro problema: essas regras não estavam claras na Uniban. Muitas outras jovens universitárias usam roupas curtas ou, para usar o jargão popular, “provocantes”. O que determina que Geisy tenha “forçado a barra” e as demais não? Tenta-se agora inventar um limite claro para o que antes era fugidio. Mas isso não é o mais grave.

Assusta ver que a questão tenha se resumido a isso: se Geisy errou ou não na escolha do figurino. Vamos imaginar que uma universidade internacional de renome receba em seus corredores a exuberante Geisy Arruda. O que aconteceria? Talvez suspiros de escândalo, olhares de reprovação. Provavelmente uma suspensão à aluna. Mas o que se viu na Uniban foi muito além disso: tratava-se de uma turba ensandecida aparentemente disposta ao estupro e ao linchamento. Quando se compara o Brasil com o estrangeiro, leva-se em conta as roupas da aluna, mas não a reação de seus colegas.

Ao provocá-los, Geisy revelou o machismo da instituição de ensino e da sociedade como um todo. O caso diz menos da aluna (portanto, é inócuo tentar saber se ela errou ou não) do que dos demais estudantes, do nível de frustração a que estão submetidos e da maneira como lidam com o desejo. Não parece sem sentido lembrar que hoje em dia as universidades são vistas unicamente como maneiras de ascensão social (e de maior poder de consumo, ou seja, maior possibilidade de realizar seus desejos).

Por outro lado, a sexualidade de Geisy, que serviu como elemento de transgressão, corre agora o risco de ser “domesticada” em capas de revista masculina. Os mesmos que a hostilizaram (ou que seriam capazer de) agora pagarão alguns tostões para vê-la fazendo poses padronizadas em imagens de photoshop. Tudo muito correto, tudo muito comportado.

Uma vez “domesticada”, Geisy deixa de ser transgressora e se transforma em atração. Enquanto isso, a turba ensandecida permanece esquecida. Mais do que responsabilizá-los individualmente, é necessário pensar sobre suas motivações. Algo que diz muito sobre as universidades brasileiras, sobre o machismo e o conservadorismo do país e sobre como o Brasil lida com sua sexualidade.

Tagged with: , ,

vanusa

Posted in brasil by Fabio Camarneiro on 03/09/2009

Março de 2009. Assembleia Legislativa de São Paulo, primeiro encontro estadual de agentes públicos (?), a cantora Vanusa, musa do iê-iê-iê, canta o hino nacional brasileiro. Sucesso instantâneo no YouTube.

A cantora disse mais tarde que se atrapalhou com a letra por conta de um remédio tomado antes da apresentação.

De qualquer maneira, sua interpretação se tornou um retrato dos mais interessantes desse país surrealista (a começar pelo nome do evento, que parece um tanto nonsense).

O fato de pouca gente saber a letra do hino nacional está longe de ser um problema. Muito mais grave é a população não conhecer arroz, feijão ou bife. Além disso, devem haver áreas do saber mais úteis que os símbolos pátrios.

O interessante aqui é como Vanusa criou — ao que parece, inadvertidamente — pequenos deslocamentos poéticos na letra do hino.

É como se o Brasil fosse uma cisão: ao mesmo tempo dois, um oficial e outro por baixo dos panos. No canto de Vanusa, esses dois países entraram em choque, podendo coexistir ao mesmo tempo, e deixando perplexa a audiência.

Na vida cotidiana esses dois países normalmente entram em choque. Mas é difícil ver isso acontecer em um palanque oficial, durante evento do governo. As autoridades preferem pensar (ou insistem que nós pensemos) em um país mais simples e menos contraditório.

Aproveitando a deixa, outros enganos com o hino, registrados em eventos públicos Brasil afora: “deitado eternamente em berço incrédulo; és belo, és torto, impálido tremoço; e o teu fundilho espalha essas grandezas; ó, pátria mala; dentre outras mil, és de fuzil, as tuas farras; do brilho dessa sola, és mãe febril; pátria amada, Brasil…”